Ao cabo de alguns meses densos

In SERENATA A MEUS UMBRAIS, pág. 5

Ao cabo de alguns meses densos de consequências — ainda incal-
culáveis... — para a Nação Portuguesa, nada, nem ninguém, ainda
assim, nos fez perder de vista o norte magnético da bússola nacional.
Somos o que sempre fomos, estamos onde já estávamos. Agora, porém,
mais do que nunca cientes de que a longevidade da Pátria se apresenta
seriamente comprometida, nos planos da sua inteireza histórica e da
sua integridade territorial, e que da nossa capacidade de resposta aos
ataques que um pouco de toda a parte Lhe são movidos, depende a
sorte da Nação Portuguesa.

É por um Portugal irrevogável, por um Portugal que não se
quede historicamente balizado entre 1140 e 1974 (ou 1975) que vamos
continuar a bater-nos. Ainda e sempre e apesar de tudo! E remota-
mente esperançados em que Portugal possa ainda passar o Rubicão,
incólume aos ventos e marés que ameaçam de erosão, irreparável,
fronteiras antigas de séculos.

E à luz deste código de honra e desta fidelidade a princípios
de sempre, que o menos que desde já peço a mim próprio, e a todos
quantos se sintam concitados à primeira linha deste combate político,
de vida ou de morte, é que tudo façamos por ter jus à dignidade
suprema de enfileirar — como diria Garret — no número desses «raros
e fortes caracteres» que «aparecem sempre na agonia das grandes ins-
tituições para que nenhuma pereça sem protesto, para que de nenhum
pensamento durável e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe
faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre»
.


RODRIGO EMÍLIO